sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Cristina Ferreira - Crónicas ( IX )








Tudo o que é demais aborrece!



As imagens certas no momento certo "vendem" qualquer produto, seja ele económico, social ou político. Não há veículo mais eficaz para a construção e difusão de uma determinada imagem do que a televisão. A força e a eficácia destes meios leva a que o poder político , em particular, tenha vindo a procurá-los cada vez mais, no sentido de fazer chegar ao público imagens que o promovam adequadamente. Sucesso e poder andam de mãos dadas, ou seja, um é consequência do outro e vice-versa, afirma Ana Castro, no artigo da revista XIS.


Marcelo Rebelo de Sousa tem sido um "bom" exemplo da utilização intensiva da imagem, dirão alguns, eu digo que é um mau exemplo. As diversas estações televisivas usam a figura do presidente como o motivo mais importante do que se passa no país, nada mais acontece quando Marcelo Rebelo de Sousa se desloca aos locais das tragédias. A televisão precisa dos abraços e lágrimas, ele das câmaras. Ah! e não esquecer que a fotografia com o Sr. Presidente também já é recorrente, é para mais tarde recordar.



Muitos seguem este exemplo: aparecer o maior número de vezes possível, publicar fotos de tudo e com todos, pois o mais é importante é ser sempre notícia. O motivo não é o mais importante e, por isso, se observarmos o que é publicado descobrimos que o conteúdo não é mais do que a autopromoção, a vertente pessoal, o mostrar que esteve lá - nem que seja só para tirar a fotografia, publicar e depois ir embora. A moda de estar em todos os eventos, a necessidade de mostrar que se esteve, parece que se está a criar um álbum fotográfico para o próprio se convencer de que é capaz.

Claro que todos queremos saber o que vai acontecendo mas essa informação de certeza que não está nem na fotografia que tem o presidente em primeiro plano, nem no discurso, ou entrevista na qual se refere constantemente eu.

Nos outros talvez crie a ilusão de participar nos acontecimentos ou a ideia de que estão a ser informados, para mim parece-me uma necessidade de afirmação, de elevar a autoestima, como se houvesse uma lacuna para preencher.

De uma maneira geral usa-se a imagem, e nas diversas redes sociais isso é uma constante, e não é aí que reside o problema: o problema está no uso abusivo, na repetição, na mensagem que se quer fazer passar.
Por isso é preciso descodificar a imagem, é preciso perceber as dinâmicas escondidas inerentes à promoção pessoal, é preciso desenvolver o sentido crítico e o distanciamento que permita olhar para lá das aparências.

A subtil e engenhosa apresentação do quotidiano é sensacionalista, quando deveria ser feita com rigor, exatidão e interpretada com honestidade. A distinção entre notícia, opinião e promoção pessoal deve ficar bem clara aos olhos do público pois, de outra maneira, só teremos o engano e a mediocridade.

Fernando Namora, no livro Diálogo em Setembro, afirma que tem de haver um limiar de respeito, que ninguém pense servir-se da televisão, ou outros meios, para proceder a uma lavagem dos cérebros com o único objetivo de embrutecer as gentes.

Aos ouvintes da Castrense FM [e leitores neste espaço], um bom fim de semana.




19/01/2018


Cristina Ferreira