domingo, 12 de fevereiro de 2017

Autarquias Inclusivas - Intervenção do BE-Almodôvar

Decorreu em Beja, na Casa da Cultura de Beja, o encontro autárquico distrital: Autarquias Inclusivas - Debater para construir programas.

Com a participação de vários oradores,  com sensibilidades e vivências naturalmente diferenciadas entre si, coube a Cristina Ferreira evidenciar e debater:






"A serra como potencial para o desenvolvimento sustentável"




A serra, património natural do concelho de Almodôvar, revela um potencial para o desenvolvimento local que continua por aproveitar e a ser relegado para segundo plano pelos diversos executivos.

A serra representa uma área considerável deste concelho, cerca de 2/3, mas não tem expressão económica significativa quer a nível turístico e ambiental, quer a nível do aproveitamento dos recursos naturais e endógenos.

Excetuando algum evento pontual como, por exemplo, a realização de provas de desportos motorizados ou feiras, a serra surge em primeiro plano nas preocupações dos executivos autárquicos somente quando motivada por alguma catástrofe, como é o caso dos incêndios florestais, sendo os de maior relevância o de 2004 e, mais recentemente, o de 2016.

A inexistência de estratégias de desenvolvimento económico e social, dinamizadas pelos órgãos autárquicos, e que se baseiem no aproveitamento dos recursos serranos, que promovam a fixação da população e o desenvolvimento económico, têm conduzido ao êxodo da população ativa e, consequente, ao esvaziamento de montes e aldeias do concelho, particularmente os que se situam na serra.

De referir que Almodôvar chegou a ter uma população próximo dos 12.400 habitantes, sendo que atualmente o seu número medeia entre os 7.000 e os 7.500.

Votada para segundo plano pelo executivo e juntas de freguesia, o decréscimo demográfico tem acentuado, com todas a consequências que o êxodo provoca, uma situação de abandono: seja por parte da população - das suas casas, terrenos e atividades agrícolas; seja por parte das autarquias que deixam de investir nas estruturas, como estradas e serviços públicos, conduzindo a um cada vez maior isolamento social e geográfico da população que ainda resiste nestes locais.

Olhar para a serra como fator de desenvolvimento sustentável a nível económico, social e ambiental implica uma mudança de atitude e de estratégia: valorizar o que já existe e potenciar os recursos e os produtos existentes. Assim, só a título de exemplo do que pode, desde já, ser valorizado posso destacar os tradicionais:

- a cortiça

- o mel

- cogumelo

- medronho

- a atividade cinegética

- a gastronomia

Só para citar alguns.

A par destes, seria também uma mais-valia o desenvolvimento e implementação de estratégias que potenciem o turismo de natureza, o religioso e arqueológico; as atividades de e na natureza: como percursos pedestres, com roteiros de observação paisagística e atividades de observação da fauna e flora locais.

A serra tem, simultaneamente, as condições ideais para a prática de diversas modalidades desportivas, destacando-se aquelas que podem tirar o melhor partido das suas características topográficas e morfológicas como o ciclismo, o BTT e o motocross, entre outros.

Também, a nível cultural, as potencialidades são imensas. Desde o património imaterial, feito de saberes e vivências, que as suas gentes possuem - e que urge recolher e promover, por exemplo, através de um festival da oralidade da serra - à criação artística, inspirada na serra e suas tradições, e que pode ser desenvolvida por meio do estabelecimento de uma "aldeia" para receber artistas e artesãos de diversas áreas contribuindo, assim, para a sua preservação e divulgação. Seria igualmente relevante perspetivar, no campo da investigação e divulgação da fauna, da flora e do património natural, a criação de um centro interpretativo.

Uma outra forma de dar solidez a estes projetos é agregá-los numa Marca que abranja todo o território serrano, atestando a sua origem e qualidade.

A eficaz implementação de um programa promotor das potencialidades da serra trará como resultado a inversão de um ciclo de abandono e esquecimento.

Uma estratégia que tenha por objetivo a fixação de pessoas, sustentado na criação de postos de trabalho seja, por exemplo, através do turismo - agroturismo e rural - seja pela produção e divulgação dos produtos, estabelece dinâmicas sociais e económicas que permitem o repovoamento destas regiões. Igualmente, o reinvestimento nas redes rodoviárias e serviços públicos dão consistência ao seu desenvolvimento sustentável.

A serra constitui por si só 2/3 da riqueza deste concelho. Os modelos socioeconómicos que têm vigorado e que favorecem o abandono deste vasto e riquíssimo património estão, claramente, gastos e acabados. Não são sustentáveis.

Assim, como não é sustentável, uma autarquia que não reconheça que agora é o momento certo para mudar!



Beja, 4 de fevereiro de 2017