domingo, 24 de abril de 2016

25 de Abril em 2016

Celebra-se este ano os 42 anos da Revolução dos Cravos.

O 25 de Abril é evocado também como o dia da Liberdade, porque deste dia em diante, os portugueses e portuguesas, passaram a ser livres para decidir as suas vidas e usufruir plenamente dos seus direitos e deveres de cidadania.

Foi uma porta que se abriu a coisas tão básicas como a Paz, o Pão, a Habitação, a Saúde e a Educação.

Com maior ou menor pompa e circunstância, em todos os municípios nacionais, o 25 de Abril de 1974 é relembrado e enaltecido pela forma como este deu poder ao povo.

E, o Poder do Povo, não é coisa abstrata. Ele é a raiz da palavra DEMOCRACIA.

Este é o regime político que regula o estado nacional assim como o regional e o autárquico.

É ao nível do “estado” Autárquico que se evidenciam os maiores avanços ou recuos da Democracia alcançada em 1974.

Almodôvar não é excepção.

Para o Bloco de Esquerda em Almodôvar as conquistas de 74, por vezes, parecem percorrer caminhos enviesados.

Muitas vezes, Democracia, torna-se uma palavra incómoda e vazia de significado. Noutras, enche discursos e acarinha ideias que tal como fogo-de-artifício rapidamente se esfuma no ar.

Em 2016, o 25 de Abril celebrado pelo poder autárquico, para além do almoço de confraternização da praxe, contará também com uma Sessão Solene Comemorativa da Assembleia Municipal, ambos realizados em Santa Clara-a-Nova e antecedidos pelo hastear da bandeira nos Paços do Concelho.

É precisamente este, o artifício dos democratas da nossa autarquia: usar a celebração de Abril para chegarem às populações nas freguesias, neste caso Santa Clara-a-Nova, com toda a pompa mas enviesando na circunstância de dar ao povo o poder de intervir na Sessão.

Intervenção de 25 de Abril de 2013 de António Guerreiro, membro do
Núcleo Concelhio do Bloco de Esquerda
É exactamente da circunstância de dar voz ao povo que os autarcas fogem. E é por essa mesma razão que os convites de participação dirigidos ao Bloco de Esquerda, não contemplam o direito de intervenção, porque para o Bloco de Esquerda, Democracia e Liberdade não são conceitos abstractos para usar em concursos de melhor discurso.

Coerente consigo próprio, o BE-Almodôvar sempre procurou criar oportunidades à participação directa dos e das munícipes nos órgãos autárquicos, quer através da inclusão de correcções no regimento da Assembleia Municipal quando se fez representar nesta com um deputado eleito, quer no incentivo à marcação de sessões nas várias freguesias do concelho.


Haja vontade política e considere-se a Sessão Solene a realizar em Santa Clara-a-Nova, um tímido primeiro passo da Assembleia Municipal para aproximar-se das populações nas freguesias.

Haja verdade política e esta será a melhor forma de Celebrar Abril!



O Povo é quem mais ordena!




25 de Abril, Sempre!


segunda-feira, 14 de março de 2016

E se Karl Marx nunca tivesse existido?


Imagem: Pierre Wolfer- Karl Marx. Alguns direitos reservados.
Cumprem-se hoje, 14 de Março,  anos sobre a morte de Karl Marx.

Elogiado por muitos e criticado por outros tantos, Marx tem sido descrito como uma das figuras mais influentes na história da humanidade. Muitos intelectuais, sindicatos e partidos políticos a nível mundial foram influenciados por suas ideias, com muitas variações sobre o seu trabalho base. Marx é normalmente citado, ao lado de outros grandes pensadores: Friedrich Engels,  Émile Durkheim e Max Weber, como um dos principais arquitetos da ciência social moderna.

Alguma historiografia conservadora centra-se na biografia e na psicologia dos pensadores e dos líderes políticos. E Karl Marx não escapa a essas investidas, sejam elas intelectualmente grosseiras ou grosseiramente intelectuais.

Essas investigações psicológicas e biográficas até podem ter a sua utilidade, mas nunca quando resultam na unilateralização da realidade. É daí nasce muita ficção histórica descuidada. Simplificações que ignoram as lutas de classes, que escondem os interesses sociais em conflito.

Uma história realmente consciente interessa-se por questões tão relevantes que ainda que Marx nunca tivesse existido seriam igualmente estruturantes da realidade e da transformação social. Marx não inventou a luta de classes. Mas fez descobertas fundamentais acerca do papel da luta de classes como motor da história.

Em 1844, Marx leu o Esboço de uma Crítica da Economia Política de Friedrich Engels e constatou que, por caminhos diferentes, estavam a chegar às mesmas conclusões sobre a sociedade capitalista e a necessidade da sua superação.

Também estou em crer que mesmo sem a maçã de Newton, mais tarde ou mais cedo, algum primata superior seria atingido na cabeça pela lei da gravidade. O que para uns é um galo, para outros é uma ideia. Neste caso, foram dois génios que desenvolveram conjuntamente uma compreensão da realidade social.

Marx, que num episódico primeiro avistamento nem tinha gostado de Engels, acabou por encontrar neste um parceiro intelectual, um amigo e camarada de toda a vida. As biografias dizem que estiveram uns dez dias seguidos a conversar louca e longamente, assim que conheceram bem as ideias um do outro. Assim, começaram a grande aventura de desvendar os segredos da sociedade burguesa através da crítica da economia política.

Marx e Engels aprenderam a ideia comunista com o movimento operário. E quiseram levá-la mais além. As posições da investigação e ação política destes dois camaradas, como se adivinha facilmente nas polémicas com outros autores, era inicialmente minoritária no movimento dos trabalhadores. Qual a utilidade de uma ciência histórica da sociedade? Para quê essa “concepção materialista da história” que mais tarde seria chamada de “materialismo histórico”? E qual a necessidade de uma crítica da economia política?

O objetivo dos dois autores não era formar qualquer linhagem intelectual, era mesmo desvendar os segredos da exploração capitalista, as razões sociais que fundam o poder político, a dança das formas que espelham a realidade social, o metabolismo entre a humanidade e a natureza, as possibilidades da transformação social e internacional. Um saber prático, transformador. Um rigor comprometido com os interesses da classe trabalhadora, a classe que tudo produz e que é roubada, a classe que com a sua luta coletiva faz a mediação entre a libertação do indivíduo e a libertação da humanidade.

A leitura de Marx e Engels não deve ser um culto de textos sagrados ou de santos. Recusando qualquer simpatia pela doutrinação (mesmo que esta venha sob a capa de um suposto “socialismo científico”), devemos ler Marx, Engels e outros autores, autoras e combatentes do movimento socialista mundial como clássicos que contribuem para a análise da realidade social de hoje.

O uso da designação marxista[1] serve para indicar inequivocamente a pertença a uma continuidade histórica de luta e “crítica de tudo o que existe”. Vários autores se afirmam pós-marxistas, neocomunistas, e outros nomes derivados. São etiquetas que se renovam, vendem bestsellers, enchem prateleiras, e são arrumadas em caixas que acabam, por fim, nas caves do esquecimento. O que é preciso é pensamento articulado com a luta social.



Nota

[1] Digo isto consciente da ironia de o próprio Karl Marx ter criticado alguns seus contemporâneos que se auto-intitulavam marxistas – mas que, no caso, deturpavam as suas ideias.

Fontes:

E se Karl Marx nunca tivesse existido?, artigo de 03/Mar/2016 de Bruno Góis em A Contradição

Karl Marx, artigo de enciclopédia livre em Wikipédia.org (versão em língua portuguesa)