sexta-feira, 14 de maio de 2021

Cristina Ferreira - Crónicas IV (14MAI2021)




 

EDUCAÇÃO, FORMAÇÃO, INOVAÇÃO: O TRIPÉ DOS DIREITOS SOCIAIS NA EUROPA

 

O verdadeiro tripé para fazer crescer a Europa dos direitos sociais, ao mesmo tempo que cresce a economia europeia, estará na educação, na formação e na inovação, afirma Ricardo Arroja, colunista do ECO

“A cimeira europeia ocorrida há dias no Porto cumpriu o objectivo proposto, mas a papinha já estava toda feita (…) e Portugal teve a felicidade de ter sido o palco escolhido para a ocasião. Ainda bem para Portugal e em particular para a cidade do Porto que desta forma ficará associada ao plano de acção da Comissão Europeia, que de futuro fará a implementação do chamado pilar europeu dos direitos sociais. Mas há uma dúvida que permanece: será a Europa capaz de se afirmar simultaneamente do ponto de vista social e económico?

A União Europeia é reconhecidamente a região do mundo onde os direitos sociais são mais valorizados. O Estado social é uma criação europeia, que década após década tem vindo a ser reforçado. Todavia, a Europa é também um continente em declínio demográfico e sem o vigor económico de outras geografias. Em 2012, no auge da crise europeia, (…) a Europa representava 7% da população mundial, 25% do PIB e 50% da despesa social. A pungência dos números fala por si e em geral os números são o melhor antídoto contra a retórica vazia. Sendo certo que a convergência não pode ser apenas económica (…), a verdade é que quando falamos dos direitos sociais, em particular nos países que menos têm crescido, voltamos sempre à mesma discussão: como conciliar a produção de rendimentos com a sua distribuição?

A resposta à questão anterior depende crucialmente do que queiramos considerar ao falarmos de direitos sociais. O pilar europeu dos direitos sociais foi lançado em 2017 na cimeira de Gotemburgo. Foram então enunciados os princípios, mas faltava a concretização e um plano de acção para lá chegar. A intenção de concretizar chegou agora pela mão da Comissão Europeia e dos vinte princípios definidos no pilar europeu dos direitos sociais avançou-se para três objectivos concretos a atingir até 2030. E estes objectivos são:

1-           Taxa de emprego de 78% (…)

2-           Pelo menos 60% de adultos a frequentar acções de formação todos os anos;

3-           A redução de pelo menos 15 milhões de pessoas ao grupo de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social, incluindo no mínimo 5 milhões de crianças.

O acesso à educação, tanto na juventude quanto na idade adulta, é a principal alavanca para uma política de direitos sociais. É a educação que permite às pessoas evitarem a exclusão e o desemprego. É também a educação que possibilita o elevador social que, em particular para as crianças de famílias desfavorecidas, constitui o passo decisivo rumo a uma vida de sucesso. Parece-me, portanto, muito bem que o financiamento público da educação e da formação contínua seja dotado de meios reforçados.

Contudo, é igualmente importante que este financiamento vá de encontro aos seus efectivos beneficiários, isto é, as pessoas que vão usufruir da oferta educacional, em vez de se perder pelo caminho. No que diz respeito à formação contínua, o objectivo da Comissão Europeia é muito ambicioso. Trata-se de quase duplicar a proporção de adultos em aprendizagem permanente (…)

A educação é hoje equiparada a um bem público. O seu financiamento (público) é consensual em toda a Europa, existindo apenas discórdia sobre o modo de prestação da mesma e sobre a forma como os recursos chegam ao utente. Alargar o financiamento público da educação à chamada formação ou aprendizagem contínua será, portanto, uma mera extensão da mesma lógica que preside ao apoio público nos restantes níveis de ensino. O desafio estará depois na oferta de formação que faça sentido. (…). Todavia, do que hoje se fala é de um crescimento baseado em inovação e aqui a experiência mostra que o modelo social da Europa não tem sido tão feliz quanto outros modelos de outras regiões do mundo.

(…)  

As medidas assistenciais de prevenção do risco de pobreza são importantes, sobretudo no caso das crianças que não decidem sobre os ambientes frequentemente desfavoráveis em que nascem. Mas o verdadeiro tripé para fazer crescer a Europa dos direitos sociais, ao mesmo tempo que cresce a economia europeia, estará na educação, na formação e na inovação.”

(https://eco.sapo.pt/opiniao/o-pilar-social-e-a-economia/)

 

Caixa Alta, Rádio Castrense

Cristina Ferreira, 14/05/2021


sexta-feira, 7 de maio de 2021

Cristina Ferreira - Crónicas IV (07MAI2021)

 



GERAÇÕES DE IDOSOS À RASCA

 

“O que o país alheado da realidade descobriu com os milhares de mortes nos lares não se muda com melhores lares. Muda-se com mudança de muitas coisas na sociedade para que a cidadania e os direitos dos mais velhos sejam o princípio e não a exceção, afirma José Manuel Pureza, Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda e professor universitário, no artigo publicado no diário “As Beiras”.

Em fevereiro, o país descobriu o que já estava escancarado há muito tempo. Os milhares de mortos nos lares puseram em evidência as condições extremamente precárias de uma grande maioria deles, limitados a serviços mínimos de depósitos de pessoas passivas e infantilizadas. O país confrontou-se com o que já devia saber há muito: em vez de investirmos na autonomia segura dos mais idosos, deixámos que se instalasse uma atitude geral de armazenamento dos velhos, desaproveitando a sua sabedoria e a sua experiência de vida. E essa atitude animou uma economia, a dos lares e centros de dia, certamente a mais pujante em muitos territórios abandonados pelo investimento público e sobre a qual se criaram polos de poder local personalizado e malhas de negociação política privilegiada entre o local e o nacional.

O país sabia disto tudo e deixou andar porque isso convinha às redes de poder assim estabelecidas. Os mais idosos são, há muito tempo, uma geração à rasca. Tantas, tantas vidas apoiadas em pensões abaixo do limiar de pobreza, com habitações sem a mínima qualidade, a levar em cima todas as fragilidades do Serviço Nacional de Saúde. Universo pobre, desconsiderado, desrespeitado.

À geração à rasca dos jovens precários o país respondeu ofensivamente com o convite à emigração. A sucessivas gerações à rasca dos idosos o país respondeu irresponsavelmente com o armazenamento e a infantilização em lares. A institucionalização para a passividade e para a dependência foi o rosto da demissão da sociedade e do Estado para com os mais velhos.

Precisamos de uma bazuca de vontade política para termos uma sociedade e um Estado onde os mais velhos não sejam um peso, mas sim ativos de experiência e de saber. Para ser assim, a um tratamento baseado no depósito e na infantilização tem que se contrapor um tratamento baseado na cidadania e nos direitos. Isso materializa-se em descentralização dos serviços públicos, em programas de apoio domiciliário, em políticas de adaptação das habitações, na criação de condições para a mobilidade nas cidades, em gabinetes de apoio em todas as freguesias para combater a infoexclusão. E sempre, mas sempre, uma valorização das pensões fazendo convergir as mais baixas com o salário mínimo, e um alargamento do acesso ao Complemento Solidário para Idosos.

O que o país alheado da realidade descobriu com os milhares de mortes nos lares não se muda com melhores lares. Muda-se com mudança de muitas coisas na sociedade para que a cidadania e os direitos dos mais velhos sejam o princípio e não a exceção. Mudar a sociedade para os mais velhos e para os mais novos, não menos que isso.”

 

Artigo publicado no diário “As Beiras” a 4 de maio de 2021

Sobre o autor: José Manuel Pureza - Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.

 

Caixa Alta, Rádio Castrense

Cristina Ferreira, 7/5/2021