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sexta-feira, 7 de junho de 2019

Cristina Ferreira - Crónicas II (07JUN2019)


Crónica 21.ª

(Caixa Alta S2 - 07JUN2019)




Bem-vindo e boa viagem é a mensagem à entrada da autoestrada, ou então a armadilha de uma operação STOP para pagar dívidas às finanças. Bem sempre ouvi dizer para se conduzir com prudência pois nunca se sabe o que se pode encontrar.

Esta situação de tão despropositada que foi obriga-nos a pensar no país que temos e na maneira como ele é conduzido, ou seja, governado.

Temos por um lado uma autoridade Tributária e Aduaneira que desiste de cobrar dívidas de milhões de euros e outra que, num rasgo de criatividade, se lembra de mandar parar os condutores e cobrar, ali no local, a dívida ou então fica o carro penhorado.

A Brisa, não pagou 125 milhões ao fisco pois este desistiu da cobrança, em virtude de a Autoridade Tributária e Aduaneira anular a liquidação adicional que tinha instaurado à Brisa pela venda da sua participação na Companhia de Concessões Rodoviárias, no Brasil.

A decisão foi tomada em 2016 pela Unidade dos Grandes Contribuintes depois de ter recebido pareceres internos que apontavam em sentidos diferentes.

A alienação de 16,35% da participação na Companhia de Concessões Rodoviárias, permitiu um encaixe de 1,3 mil milhões de euros ao grupo presidido por Vasco de Mello.

O relatório de inspeção apresentado pelo inspetor da Unidade dos Grandes Contribuintes defendeu que a operação deveria ser sujeita ao pagamento de imposto em Portugal. A empresa teve uma posição contrária, claro está. Esta inspeção deu lugar à ação de uma liquidação adicional, mas acabou por ser anulada.

A Autoridade Tributária Aduaneira ainda pediu dois pareceres internos sobre o assunto, mas como apresentavam posições contrárias, a Unidade dos Grandes Contribuintes decidiu validar a conclusão do segundo, optando pela anulação da dívida.

O fisco não encontrou formas alternativas de cobrança o que fez com que o estado perdesse a cobrança de 125 milhões. Será com que com mais empenho e criatividade não encontrariam outra solução?

Numa atitude oposta penalizadora e intimidatória surge uma Operação Stop para cobrar as dívidas fiscais ao contribuinte, mas só aqueles que por acaso e necessidade circulam nas estradas e autoestradas, e caso não fosse paga na hora, já a solução estava definida: penhorar a viatura.

Os elementos da GNR mandaram parar as viaturas, e após consulta aos agentes das Finanças que estavam nas tendas, se os condutores apresentassem dívidas, era solicitado o seu pagamento imediato. Se eles conseguem montar este esquema tão sofisticado de cobrança, que até o sistema informático responde de forma tão eficiente e rápida, o que não conseguiriam para os grandes devedores fosse do fisco, banca ou outros?

Talvez assim seja mais fácil perceber o desplante e riso de Joe Berardo, bem como de tantos outros, que afrontam e lesam o sistema e saem ilesos.

Perante esta operação STOP para cobranças fiscais colocam-se várias perguntas: que tipo de dívidas estavam em causa, qual a situação quanto à recuperação dessas dívidas nos casos dos cidadãos intercetados, que valor em dívida justificava a apreensão da viatura e de que forma eram acauteladas as garantias de “um processo justo e com contraditório e à privacidade dos seus dados pessoais”.

Esta iniciativa da Operação Stop promoveu um clima de perseguição, quando o papel da GNR é o da prevenção e combate à criminalidade rodoviária.

Agora não basta conduzir com prudência é também necessário conduzir sem dividas!



Caixa Alta, Rádio Castrense

Cristina Ferreira, 07-06-2019




sexta-feira, 18 de maio de 2018

Cristina Ferreira - Crónica ( XXIII )












O Bloco de Esquerda não compactua com o CRIME AMBIENTAL DE FORTES o que motiva a visita da sua Coordenadora, Catarina Martins, e da deputada Maria Manuel Rola, da Comissão Parlamentar de Ambiente, hoje, sexta-feira, 18 de Maio, pelas 17h30. 

Não chegava já a praga da MONOCULTURA DO OLIVAL SUPERINTENSIVO, que tem o expoente máximo no concelho de Ferreira do Alentejo, com a erosão dos solos e a contaminação das linhas de água, esta fábrica de bagaço de azeite é um foco inadmissível de poluição a céu aberto, a poucas centenas de metros da povoação de Fortes e da A2. O cheiro desta fábrica também é sentido em Aljustrel e Castro Verde. 




A fábrica pertence à Azeites de Portugal, SA – com sede em Santa Maria da Feira. Por sua vez, estes azeiteiros lusos são a testa-de-ferro do grupo MIGASA – Miguel Gallego, SA, com sede em Sevilha e que se autointitula líder mundial do azeite. 

Como muitas outras SA espanholas que dominam o ramo da olivicultura super intensiva e os negócios do azeite, comportam-se no Alentejo como se estivessem em terra conquistada, usando e abusando de más práticas agrícolas e ambientais. O grupo MIGASA proclama a sua responsabilidade social e preocupações ambientais (a que já são obrigados) em Espanha, mas usam Portugal como o pátio das traseiras, perante a incompreensível passividade dos Ministérios do Ambiente e da Agricultura. 
Esta fábrica é a ponta do iceberg, os olivais são os alicerces de uma produção desenfreada, um saque aos recursos naturais e ambientais do Alentejo. 

Se dia 18 temos a coordenadora Catarina Martins, no dia 19, o Bloco de Esquerda fará a homenagem a Catarina Eufémia, pelas 19 horas no cemitério de Baleizão, e contará com a presença do líder do grupo parlamentar: Pedro Filipe Soares. 

Filha de camponeses sem terra, Catarina Eufémia nasceu a 13 de fevereiro de 1928, em Baleizão. Os pais trabalhavam num latifúndio e Catarina trabalhava em casa. Nem sequer teve tempo para ir à escola.

Catarina Eufémia começou a trabalhar nos latifúndios, durante a adolescência, e aprendeu tudo sobre os trabalhos no campo, da sementeira à ceifa. Aos 17 anos casou-se com António Joaquim (operário da CUF) e foi viver para o Barreiro.

Mais tarde, António Joaquim foi dispensado da CUF e o casal regressou a Baleizão. António Joaquim conseguiu emprego de cantoneiro, em Quintos mas o seu salário não chegava para sustentar a família e Catarina voltou a trabalhar nos latifúndios.

No dia 19 de maio de 1954, Catarina Eufémia liderou um grupo de 14 ceifeiras que exigiam o aumento de mais dois escudos por jorna diária. Na herdade do Olival, o grupo foi cercado por soldados da GNR e o tenente Carrajola matou Catarina.

Durante o funeral, a GNR dispersou à bastonada a multidão que protestava contra a sua morte. No tumulto, nove camponeses foram presos, julgados e condenados a dois anos de prisão.

Para evitar romarias subversivas, por ordem da GNR, o corpo de Catarina não foi sepultado em Baleizão, mas em Quintos. Em 1974, depois da Revolução dos Cravos, os restos mortais de Catarina foram transladados de Quintos para Baleizão.

Uma nota importante: o tenente Carrajola não foi a tribunal, nem sequer foi castigado. Foi apenas transferido de Baleizão para Aljustrel, onde morreu, em 1964, de morte natural.

Vários poetas imortalizaram a sua luta, Zeca Afonso em "Cantar Alentejano" presta-lhe homenagem. 


Cristina Ferreira
18-05-2018

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Somincor - Greve no 2º "Round"







No momento em que este artigo é publicado, decorre entre os dias 6 e 11 de novembro o segundo período de greve dos trabalhadores da SOMINCOR, conforme deliberado e vertido na resolução plenária de 17 de setembro de 2017.


De entre os seis objetivos apresentados no pré-aviso de greve, a tónica da luta mantém-se pela humanização dos horários de trabalho – com o fim do atual horário de trabalho; e pelo acesso à antecipação da idade de reforma para os trabalhadores de superfície adstritos às lavarias e serviços conexos – com o estabelecimento de protocolo entre a empresa e a Segurança Social; reunindo desta forma, grosso modo, os dois principais grupos da força produtiva desta empresa: mineiros e operadores de lavarias e adstritos.

O pacote reivindicativo inclui outras matérias, como a progressão nas carreiras, a revogação das políticas de prémios alteradas unilateralmente pela administração e o fim da pressão e repressão sobre os trabalhadores, particularmente aqueles que de alguma forma estão em situação laboral mais frágil.

Recorde-se que as pretensões reivindicativas dos trabalhadores são, conforme mostram diversas atas de reunião, matéria de luta em “lume brando” desde há longo tempo atrás, e que culminou em greve, face à falta de respostas adequadas e honestas da administração.

Saliente-se que, à administração da SOMINCOR também lhe interessa uma mudança, que a mesma estudou e apresentou. Um regime horário de “laboração condensada” de 10h42m, embrulhado num pacote com vários extras curiosos, entre eles a substituição do Contrato Coletivo de Trabalho por um Acordo de Empresa, a perda de dias de férias, a venda compulsiva de folgas acumuladas, e em última análise, a perda de direitos duramente conseguidos com outras lutas.

Faz uso de todos os argumentos e pretextos para justificar a “necessidade” de alterar os horários, desde a melhoria da eficácia do aparelho produtivo, até ao cínico argumento de que esta é uma solução que vai ao encontro das reivindicações de melhoramento dos horários de trabalho, feitas pelos trabalhadores através das suas estruturas representativas. Também existem outros argumentos, principalmente o espetro do desemprego e a retaliação pela “quebra de lealdade” que apesar de não serem verbalizados, ou assumidos oficialmente, estão presentes e de certa forma contextualmente percebidos.

As revisões legislativas do código laboral têm aberto portas a muitas arbitrariedades, e em matéria de organização dos tempos de trabalho, o recurso a regimes de trabalho “criativos” – por turnos, noturnos, contínuos, condensados e outros nomes; são as formas cada vez mais utilizadas pelas empresas.

Depois de alguns avanços e vários recuos no período negocial prévio a 17 de setembro, depois de um 1º período de greve, nos dias 3 a 7 de outubro, com a consequência de mais de 90% da produção paralisada, depois de uma reunião com a administração que não se desvia uma só linha do que inicialmente propôs, o que se afigura já não é uma simples luta laboral, é um combate ideológico que visa fragilizar os mecanismos de negociação coletiva, o acesso à justiça laboral, o direito à greve, o movimento organizado dos trabalhadores, e acentuar a individualização das relações laborais e a precarização do emprego.

O Bloco de Esquerda, é solidário com as suas reivindicações e a luta dos mineiros e operadores de lavaria na SOMINCOR, e segue com alguma apreensão o evoluir deste processo, nomeadamente no que se refere à presença de forças da GNR no local de piquete de greve. Neste âmbito, a deputada que visitou o local, Isabel Pires, e o deputado José Soeiro, formularam ao governo uma pergunta que entre outras, questiona a tentativa de atropelamento de elementos do piquete por agentes daquela força. Transcreve-se:

“Hoje mesmo, dia 8 de novembro, pelas 8h15 da manhã, foi reportado pelos trabalhadores, com queixa encaminhada às autoridades, que houve uma tentativa de atropelamento de um carro da GNR a três elementos do piquete de greve.”


Sendo que o policiamento passivo e ativo (pouco ortodoxo), a instalação de vedações e portões, formas de diminuir a capacidade de luta do piquete de greve, o que por si só é um desvio ao direito constitucional do exercício da greve, o BE-Almodôvar entende que isso demonstra que uma parte da luta já foi ganha. Demonstra que afinal os trabalhadores unidos,os tais 17% de grevistas, têm voz!

Durante este período, no dia 10 mais em concreto, os trabalhadores das minas Neves-Corvo, irão mostrar em Lisboa no Ministério da Seg.Social que o Cante que sair das suas vozes unidas, não será a melodia cadente e pachorrenta que porventura estarão habituados. Delas saem também as palavras de ordem, de resistência e clamor pela justiça que lhes tarda a chegar.


Nas minas de Aljustrel, os trabalhadores da esfera Almina (Almina, EPDM, Urmáquinas) preparam-se para dar início a uma jornada de luta similar aos de Neves-Corvo, a iniciar no dia 22 de novembro e finalizar dia 26, fazendo coincidir com início do primeiro turno e fim do último turno. As reivindicações são:


  • A melhoria dos salários e demais matérias de expressão pecuniária;
  • Melhoria das condições de Saúde e Segurança no Trabalho;
  • Pela Humanização dos horários de Trabalho na Lavaria;
  • Pela normalização das relações de trabalho na empresa, contra a repressão sobre os trabalhadores;
  • Pelo Direito à negociação e pelo reconhecimento do Sindicato representativo dos trabalhadores. 

Estas empresas apesar de operarem fora do nosso concelho, possuem vários trabalhadores munícipes de Almodôvar a prestar aí serviço. Naturalmente o BE-Almodôvar fará um acompanhamento do evoluir da situação, sendo desde já solidário também com a luta destes trabalhadores.

Pode ler também:

 ------- Trabalho por turnos: E Agora? , parte integrante
           do Dossier 269: Trabalho por turnos: Vidas em contraluz