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sexta-feira, 3 de julho de 2020

Cristina Ferreira - Crónicas III (03JUL2020)








DISPARIDADE SALARIAL 


Trabalho e responsabilidade iguais a cargo de homens e mulheres refletem-se, no final do mês, em salários com valores diferentes. Ainda acontece e, apesar de toda a legislação que diz que para trabalho igual, salário igual, as mulheres são penalizadas pois o valor/hora paga a estas é mais baixo. 

Estamos a falar de Portugal, e estamos a falar da atualidade e estamos a falar de disparidades laborais, sociais e económicas. Falamos de evolução social que não acontece e de uma urgente mudança de mentalidades que considera e valoriza de forma diferente o trabalho realizado pelo homem ou pela mulher. 

O Comité de Direitos Sociais do Conselho da Europa considera que Portugal tem uma legislação adequada para pôr fim à disparidade salarial entre homens e mulheres, mas refere que Portugal pouco ou nada tem feito para a pôr em prática. 

Assim o comité considera que “as medidas adotadas para promover oportunidades para homens e mulheres no que diz respeito ao salário são insuficientes e não resultaram num progresso visível”, o que acaba por constituir uma violação do previsto na carta, cita o jornal Público. 

Se a legislação existente é adequada então falta o seu cumprimento por parte de quem contrata, e a denúncia da não aplicação da lei. 

O objetivo será promover oportunidades de emprego não situações de disparidade salarial que arrastam consigo tantas outras de caráter social, laboral e económicas e perpetuam a ideia de que o valor laboral da mulher será sempre inferior ao do homem. 

A desigualdade salarial entre homens e mulheres é um tema que gera controvérsia e vários grupos afirmam que tal não ocorre na realidade, mas a verdade é que as autoridades portuguesas reconheceram SEMPRE que esta é uma realidade em Portugal. 

Porém, o Governo português afirma que “estão a ser feitos todos os esforços possíveis para reduzir efetivamente esta desigualdade, destacando em particular o aumento do número de casos que são julgados em tribunal, bem como as iniciativas de fiscalização da Autoridade para as Condições do Trabalho e as ações de formação e sensibilização realizadas”, cita o Público. 

Ainda bem que há ações de formação e sensibilização, só espero que sejam acompanhadas de mudanças estruturais e da aplicação do que está na lei, não só para quem trabalha, como também para os infratores. Mas como ainda existe uma segregação significativa no mercado de trabalho e não tem havido uma redução clara e sustentada no diferencial salarial, parece-me que as ações não têm surtido o efeito desejado, não preencheram a lacuna e nem mudaram posturas e procedimentos. 

Em 2010, os salários por hora das mulheres eram 12,8% inferiores aos dos homens. Em 2017, mesmo após a implementação de legislação para colmatar esta disparidade, a diferença aumentou para 16,3%. 

O Artigo 20.º c. da Carta Social Europeia, exige que se garanta o direito a oportunidades iguais e ao tratamento igual no emprego e em qualquer ocupação, sem discriminação por género, no que diz respeito ao salário. 

Portugal não o está a cumprir.
Será que tem a intenção de algum dia o fazer?
Fica a pergunta. 




Caixa Alta, Rádio Castrense 

Cristina Ferreira, 03/07/2020 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Cristina Ferreira - Crónicas ( VIII )






2018: será este um ano de igualdades?

Será 2018 o ano em que as mulheres ganharão tanto como os homens?

Esta pergunta surge no seguimento da notícia de que a Islândia é o primeiro país a obrigar as empresas com mais de 25 trabalhadores a acabar com as diferenças salariais entre homens  mulheres.

Desde o dia 1 de Janeiro, as empresas são obrigadas a certificar e provar que pagam salários iguais a homens e mulheres com a mesma função.

Portugal está a estudar a possibilidade de aplicar o modelo islandês de certificação da igualdade salarial afirmou a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Monteiro.

Esta é uma excelente notícia se tivermos em conta que, em Portugal, os homens ganham, em média e de acordo com os dados da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género 990 euros de salário, enquanto as mulheres se ficam pelos 824 euros, é só uma diferença de 166€, pelo que é totalmente justificada esta medida de modo a sinalizar e combater a desigualdade laboral.


Esta certificação da igualdade salarial, nos primeiros dois anos, será aplicável às empresas com mais de 250 trabalhadores e, posteriormente, será alargada às empresas com mais de 100 funcionários.

A discriminação salarial baseada no sexo passará a constituir uma contraordenação grave. 

Dois anos é muito tempo, e se tivermos em conta que em Portugal 95% do tecido empresarial é composto por micro, pequenas e médias empresas e, no distrito de Beja esse número sobe. Até que seja aplicada nos diversos concelhos do distrito, temos muitas empresas descansadas e a praticar essa desigualdade.

Seria bom que os deputados da Assembleia da República, eleitos pelo círculo de Beja, tivessem em conta esta situação e tomassem medidas que minimizassem o atraso da reposição da igualdade salarial.

“O que não podemos continuar a aceitar é que, para trabalho de valor igual, as pessoas ganhem valores diferentes”, conclui a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade pois, apesar desta igualdade estar consagrada na lei, como afirma a Confederação da Indústria Portuguesa, ela não é praticada por todas as empresas.

Outra boa notícia é a de que o boletim de voto em braille poderá ser uma realidade já em 2019.

Assim, no próximo ano, os eleitores podem contar, nas eleições legislativas e europeias com o boletim de voto com a matriz em braille”, e podem exercer este ato de forma autónoma.

Mais um passo para uma sociedade que se quer justa, inclusiva e socialmente responsável, eliminando barreiras para permitir um acesso verdadeiramente universal para todos os cidadãos e cidadãs.

E agora por falar em inclusão, ou melhor, exclusão:

O município de Almodôvar este ano não terá o festival Terras sem Sombra, talvez para não fazer sombra a Castro Verde que também não adere, pois os custos monetários associados ao evento são muito elevados!

Já é mau quando se corta na cultura, mas a questão agrava-se quando se afirma, como foi dito pelo presidente da câmara, António Bota, em declarações a esta rádio, que o público-alvo deste festival, a nível turístico, traz turistas mas que, apesar de serem queridos, vêm das sete às dez horas e isso não traz vantagens económicas nem para o comércio local, nem para a restauração, este tipo de público não traz grandes vantagens económicas !!!

Erro crasso considerar a cultura nesta perspetiva comercial, e sobretudo desvalorizar aqueles que nos visitam, mesmo que por poucas horas.

Mas a questão agrava-se ainda mais quando comparamos esta explicação com o discurso feito aquando da inauguração do órgão de tubos em julho de 2017: foi dito que seria uma mais-valia o conjunto de concertos e que este aspeto cultural iria permitir atrair turistas e dinamizar o comércio local, bem como dar a conhecer Almodôvar e a sua cultura!

Então em que ficamos?

Queremos turistas ou não?

Já agora devo dizer que este tema da dinamização do comércio local em todos os discursos começa a perder a eficácia desejada, de tão repetido que tem sido.

Mas voltando ao turismo: se o turista é aquele que vem conhecer para depois dar a conhecer, então temos aqui um problema para resolver: que tipo de turistas queremos no nosso concelho?

Assim, e culturalmente falando, deixo aqui algumas questões:

A primeira: como vai ser pensada e executada a agenda cultural do concelho? Que tipo de eventos vai incluir?

A segunda: aposta-se na qualidade ou na quantidade? É que elas não são sinónimas!

A terceira: que público pretende cativar?

Indo ao encontro das preocupações do presidente da câmara, devo referir que segundo vários estudos publicados, cada 1% de investimento em cultura tem um retorno de 2%, logo há lucro; por outro lado cultura significa, em sentido alargado, o conjunto dos conhecimentos adquiridos que contribuem para a formação do indivíduo enquanto ser social, pelo que, quanto maior riqueza cultural este tiver, maior será o retorno que dará à sociedade.



Bom fim de semana!



12/01/2018

Cristina Ferreira