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sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Cristina Ferreira - Crónicas IV (25SET2020)

 



O MEIO-FIM DO FATOR DE SUSTENTABILIDADE


Voltamos ao Caixa Alta e aos temas da atualidade, sempre na senda de informar e esclarecer os e as ouvintes da Rádio Castrense.

Este é um espaço de opinião, feito na primeira pessoa, sobre os acontecimentos que afetam o nosso dia-a-dia, mas claro, não esquece as lutas que travámos nem das que se avizinham.

Por isso voltamos à questão do fator de sustentabilidade aplicado nas reformas antecipadas por desgaste rápido que, na opinião de António Guerreiro, trabalhador reformado das Lavarias,  continua a ser um fator de sonegação e principalmente de injustiça, mantido pelo governo que continua a aplicar esta medida apesar de ser contrária ao que foi estipulado no Decreto-Lei nº 70/2020 publicado no Diário da República,  nº 181/2020, Serie I de 16/09/2020.

O sumário é claro e diz exatamente o seguinte: “Atualiza a idade de acesso às pensões e elimina o fator de sustentabilidade nos regimes de antecipação da idade de pensão de velhice do regime geral da segurança social.”

Mais à frente diz: “Deste modo, através do presente decreto-lei, passa a beneficiar do fim da utilização do fator de sustentabilidade no cálculo das suas pensões os trabalhadores que exercem profissões de desgaste rápido.”

Apresenta depois o rol das profissões incluídas neste estatuto e, de entre outras, sobressaem algumas que são particularmente importantes para a nossa região como sejam: trabalhadores do interior das minas e das lavarias de minério, como previsto no Decreto-Lei nº 195/95, de 28 de julho, na sua redação atual.

Até aqui, nada a apontar. Só que, de seguida, na Produção de Efeitos, surge então o seguinte: “O disposto no presente decreto-lei aplica-se aos requerimentos de pensão ao abrigo dos regimes de antecipação da idade de acesso à pensão de velhice previstos no artigo 2º aposentados desde 1 de janeiro de 2020.”

Esta alteração à lei tinha sido negociada entre o governo e os partidos da chamada geringonça e deveria ter efeitos a 1 de janeiro de 2019, apesar de só constar do orçamento de 2020.

Agora o governo vem escudar-se com a pandemia da Covid19 para justificar a não aplicação do negociado.

Sejamos sérios. O acordado já deveria estar a ser aplicado desde o início do ano.  O primeiro caso de Covid19 registado em Portugal data de 2 de março de 2020, e a pandemia só é decretada pela Organização Mundial de Saúde no dia 9 do mesmo mês.

E para além disso a pandemia só serve de desculpa para penalizar os mesmos de sempre. Não consta que crie dificuldade para financiar bancos ou a TAP, entre outros, bem pelo contrário.

O fator de sustentabilidade remonta ao tempo de Passos Coelho e da Troika, portanto, desde essa altura, os pensionistas das profissões de desgaste rápido são penalizados por este injusto imposto.

Foi agora e, sem favor nenhum, retirado. O que é da mais elementar justiça. Fica, no entanto, o sabor amargo da discriminação na medida em que, quem o pagava antes de 1 de janeiro de 2020, o vai continuar a pagar. Se o governo, ao eliminar o fator de sustentabilidade, reconhece o quanto era injusto, como é que permite que alguns o continuem a pagar?

Chama-se a isto pagar um imposto que já não existe.

Recentemente um amigo desabafava: “Será que quem pagava, em meados do século passado, o imposto sobre a utilização do isqueiro na via pública, o continua a pagar sob pretexto de que quem já pagava quando esse mesmo imposto foi abolido?”

Os trabalhadores das minas, habituados desde sempre a não ter nada de mão beijada, a nada possuir sem ser à base da luta, mantêm a disponibilidade de sempre para a continuar.

Ainda não será desta que, mesmo reformados, nos calarão.

 

Caixa Alta, Rádio Castrense

Cristina Ferreira/António Guerreiro, 25-09-2020

 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Cristina Ferreira - Crónicas III (31JAN2020)



Fator de Sustentabilidade

Cumprem-se doze meses que os trabalhadores das lavarias e pedreiras obtiveram acesso a antecipação da idade de reforma por desgaste rápido. Este era um direito reivindicado por estes trabalhadores há já longos anos e que foi possível alcançar face a uma conjuntura política favorável de quando o governo na anterior legislatura granjeou do apoio parlamentar negociado entre os partidos de esquerda – PS, PCP e Bloco de Esquerda.

No entanto este direito é ainda usufruído de forma manca, pois a regulamentação que estabelece a sua aplicação penaliza os trabalhadores que o exerçam. Isto é, por um lado são reconhecidas as condições extraordinárias de desgaste nas profissões destes grupos de trabalhadores, por outro, estes mesmos trabalhadores por via dos decretos regulamentares, portarias e extensões que lhes são aplicados, acabam sendo castigados, e esse é o termo correto, castigados por terem exercido sua profissão numa atividade desgastante.

Desde que começou a ser aplicado o fator de sustentabilidade, nas pensões de reforma, este foi igualmente aplicado às pensões dos trabalhadores das profissões de desgaste rápido, à revelia do que expressa a lei – acesso à pensão sem penalizações. Tal facto foi imediatamente denunciado pelas várias estruturas representantes dos trabalhadores, uma delas o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Mineira. Surgiram, entretanto, algumas “adendas” regulamentares para legitimar essa subtração.

Os trabalhadores mineiros, pescadores, pedreiros, lavarias entre outros, abrangidos por esta regulamentação, individualmente ou unidos nas suas estruturas representativas mantêm a reivindicação de que o fator de sustentabilidade deve ser retirado do cálculo das pensões requeridas antecipadamente por desgaste rápido e no último dia 29, um grupo destes homens e mulheres, depois de um curto percurso em manifestação, levaram à sra. ministra do trabalho a sua carta reivindicativa.

Hoje dia 31, decorrem novas manifestações em Lisboa, organizada por CGTP e sindicatos afetos à central que convocaram à participação dos trabalhadores de todo o país. Entre estes, espero que os trabalhadores camarários de Moura, não se tivessem amedrontado pelo seu presidente nem pela sua tentativa de limitar o direito de manifestação.

Sei que não é só em Moura que os trabalhadores são assediados com o sentido de limitar o seu direito a manifestar. Este mal existe também no sector privado, mas vejo com muita preocupação que atos destes têm crescido impunemente nos órgãos públicos



Caixa Alta, Rádio Castrense

Filipe M Santos/Cristina Ferreira, 31-01-2020

sábado, 30 de dezembro de 2017

Mensagem de Final de Ano (2017)


Retrospetiva 2017





2017 foi um ano de muitas ambiguidades e contrariedades.

Estamos a completar mais um ciclo anual de 365 dias com muitas histórias, vivências, descobertas, tragédias, conquistas, alegrias, amizades, surpresas ou nem tanto.

Por isso destacamos algumas.

Os trágicos incêndios florestais de Pedrógão e outros que tantas vidas ceifaram, e outras mais arrasou.

Mas também queremos destacar a resiliência, a fraternidade e solidariedade, que estes momentos mais duros suscitam nas gentes de Portugal, sejam elas mais ou menos próximas aos locais ou às vítimas da tragédia.

Em 2017, persistiram a pobreza e a miséria; continuaram a faltar meios nos mais diversos serviços públicos, como no Serviço Nacional de Saúde, e na escola pública, mas… nem tudo foi tragédia - 2017 foi também um ano que consolidou a trajetória, pelo 2º ano consecutivo, de recuperação da economia que naturalmente tem de ser posta ao serviço de quem menos tem.

Começámos esta retrospetiva olhando para fora, no plano nacional, mas e Almodôvar?

Almodôvar não é imune aos fenómenos externos ao concelho e, naturalmente, todos os homens e mulheres almodovarenses, foram tocados pelos acontecimentos que decorreram dentro e fora do seu concelho.

Numa perspetiva mais “caseira”, o que o Núcleo do BE de Almodôvar destaca em 2017 no seu concelho?

Comecemos pelas maiores, as Megalómanas, pois saltam mais à vista.

Almodôvar, vila, tem agora uma nova ponte. Uma obra que custou ao erário público a “insignificância” de 1 milhão e 200 mil euros. Coloque-se de parte as opções estéticas e técnicas, fica a pergunta: o que se resolveu com esta obra? Eventualmente apenas uma satisfação egocêntrica, mal disfarçada de embelezamento de uma das saídas da vila e que fica justamente na rota EN2.

Na onda do embelezamento, também na Vila, o bairro de São Pedro teve direito a uma recauchutagem de 90 mil euros – com direito a visita de Primeiro-ministro, perdão, do cidadão António Costa, militante socialista; que de tão deslumbrado com as magnificências Almodovarenses, passados dias retornou para provar a nossa gastronomia, e só por pouco não gastou as calorias da nossa rica comidinha nos aparelhos de ginástica do Jardim da Urbanização de Santo António (140.000 Euros), que na altura ainda estava em construção.

Ainda em construção, está também a estátua das Botas de Mineiro (pelo menos essa é a parte que se conhece das fotos que o Município de Almodôvar… perdão mais uma vez; o cidadão António Bota (presidente de câmara), publicou no seu perfil do Facebook), que além de dar o toque final ao embelezamento da saída sul da vila, honra o legado que tantos homens e mulheres que fazem das minas o seu modo de vida, deixaram e continuam a deixar nesta terra.

Talvez um vazio na inspiração do artista esteja a fazer dilatar o prazo da sua instalação no local definitivo, ou o orçamento de execução tenha ultrapassado a tão ambicionada derrama. Talvez mesmo, uma atitude solidária com as lutas laborais nas minas da região. Só é pena não se saber para que lado pende a solidariedade: se para o lado dos trabalhadores em greve depois de vários anos a tentar resolver as divergências sem esse conflito, se do lado das empresas que até por sinal patrocinam uma enorme quantidade de eventos, mais ou menos culturais, que se organizam quase todo o ano.

Focando-nos nos eventos mais ou menos culturais, 2017 mereceu a repetição de mais ou menos a mesma lista de eventos dos outros anos, com uma ou outra novidade pelo meio. O Órgão de Tubos no convento de Nossa Senhora da Conceição é uma dessas novidades. Pena é que ao lado, haja aquele edifício forrado a cortiça cuja função parece ser a de sumidouro de dinheiro e não de Cineteatro como deveria.

2017 foi também ano de eleições autárquicas. O BE, organizado no seu núcleo concelhio procurou vir a ser uma alternativa à "mesmice", nos órgãos a que concorreu. Não quiseram os eleitores que assim acontecesse, ou talvez porque o nosso aparelho de propaganda, menor em recursos e tempo, não teve capacidade de suplantar a campanha do adversário vencedor. Por exemplo, não usámos alcatrão, nem outros materiais em obras públicas, nem utilizámos a gestão corrente da autarquia – os trabalhos que ela forçosamente tem de executar no dia-a-dia; como materiais de propaganda. Como disse a nossa candidata autárquica no debate radiofónico que houve, viveu-se 2017 (e nos anos anteriores) numa verdadeira campanha eleitoral.

Brevemente chegaremos a 2018, e com este haverá a devolução de direitos e rendimentos para pensionistas, trabalhadores do público e do privado, com contrato ou recibos verdes, para quem vai passar a pagar menos IRS ou ter aumento no Salário Mínimo Nacional. Mas falta mais, muito mais!

À entrada do novo ano, renovam-se as vontades, as aspirações, e sobretudo as oportunidades para melhorar, seja de forma individual, seja coletivamente.

O Núcleo Concelhio de Almodôvar do Bloco de Esquerda, deseja verdadeiramente essa melhoria, em todos os planos da vida dos nossos co munícipes, em particular daqueles que ainda estão em situação laboral precária, irregular ou atípica, e sujeitos à boa vontade política de quem governa. Daqueles que se encontram em situação socioeconómica frágil e dependente de uma bênção caritativa. E tantas outras situações.

Este é o compromisso do Núcleo de Almodôvar do Bloco de Esquerda para 2018: contribuir para a melhoria das condições de vida dos homens e mulheres do nosso concelho, construindo com eles uma sociedade mais justa e livre.


O BE-Almodôvar, deseja-lhes um Feliz 2018!




Almodôvar, 30 de dezembro de 2017