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sábado, 20 de fevereiro de 2021

Cristina Ferreira - Crónicas IV (19FEV2021)




TEMPOS ESTRANHOS QUE A PANDEMIA ACENTUA

 

A urgência do tempo presente, ampliado pelos meios de comunicação social com recurso a opinadores que tudo sabem, a técnicos, cientistas e a vítimas do acaso, do desleixo e da necessidade, tornou primordial o assunto e conduz a decisões pessoais e políticas nem sempre determinadas pela desejada racionalidade, mesmo sabendo que a sua importância é tanto maior quanto mais delicados os problemas a enfrentar.

Confinar, limitar, proibir, amedrontar com o objetivo de evitar a doença, pode significar perturbação da saúde, perda de oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento, sobretudo em crianças e jovens, e causa de aprofundamento de uma das mais antigas e persistentes ‘doenças’ em Portugal: a perpetuação das desigualdades sociais que tem na Educação a sua causa primeira, afirma Carlos Ferreira, Diretor da Faculdade de Educação Física e Desporto da Universidade Lusófona.

Tempos estranhos que a pandemia acentua.

Na opinião de Rui Pereira, os professores têm muitos motivos para se revoltarem com este ministério da educação, que leva já seis anos, mas que não consegue resolver problemas na educação. Uns motivos serão mais graves do que outros, mas o que une os professores são motivos que interferem com a remuneração ou com a despesa para trabalharem:

– O movimento do apagão do ensino à distância por 15 minutos, e em crescendo semanal com mais períodos de apagão, reflete o aumento da despesa com o teletrabalho e uso de equipamentos pessoais, quando a lei prevê a cedência de equipamentos pelos empregadores e o pagamento de despesas adicionais de eletricidade. Mais uma vez a classe docente fica à margem da lei, que não se lhes aplica.

– Outro fator a provocar descontentamento aos professores, visto que também foram a exceção à regra no combate à pandemia, é o não cumprimento da distância de segurança nas salas de aula.

Outros há, mais estruturais, como a necessidade de um modelo de gestão mais democrático e com mais equilíbrio de poderes, bem como a sistemática desvalorização da profissão, que está a provocar falta de profissionais e alunos sem aulas, a revisão dos horários a concurso para terem um mínimo de horas, a vinculação, para falar só dos mais importantes.

Concluindo, começam a aparecer movimentações reivindicativas na classe docente, apesar das araras continuarem a ouvir-se – com o argumento de que agora não é o momento –, mas a maioria da classe começou a sentir na pele as discriminações e incongruências do poder excessivo dos diretores, da ausência do ministro, etc. Por fim, tenha-se presente o caso inglês, em que sindicatos e diretores, falam da necessidade de rever o acordo coletivo de trabalho, se houver prolongamento do horário ou menos férias de verão – diretores do lado dos professores e não a meio da ponte… conclui Rui Pereira.

O momento para resolver os problemas é agora, enquanto acontecem, enquanto as fragilidades e debilidades estão visíveis, pois é possível reinventar o espaço da escola e contar com a sua experiência para permitir segurança e que estas sejam abertas o quanto antes”, afirmou Catarina Martins. E deixou um apelo: que o executivo faça aquilo que “disse que ia fazer antes do início deste ano letivo e não fez”, ou seja, “preparar as escolas para esse modelo de ensino”.

No que respeita ao facto de o governo querer impor critérios para a atribuição do apoio, a coordenadora do Bloco de Esquerda lamentou que o executivo tente “encontrar mais situações para exclusão dos apoios” do que para incluir mais pessoas, pois as escolas não podem, em momento algum, ficar para trás nas preocupações do governo.


Fonte:

https://www.comregras.com/educacao-evitar-a-doenca-e-cuidar-da-saude-por-jorge-proenca/

https://www.comregras.com/acordai/

https://www.esquerda.net/artigo/escolha-nao-pode-ser-entre-escola-como-se-nada-fosse-ou-escola-encerrada/72867


Caixa Alta, Rádio Castrense

Cristina Ferreira, 19/02/2021


sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Cristina Ferreira - Crónicas IV (08JAN2021)

 




A PANDEMIA E OS DIREITOS HUMANOS À ÁGUA E AO SANEAMENTO

      

Na Declaração conjunta dos relatores especiais do Comité dos Direitos Humanos das Nações Unidas no Dia Mundial do Saneamento Básico, apela-se de novo aos “governos de todo o mundo a que apliquem ou restabeleçam a política de proibição de cortes de água”, a quem não consegue pagar a fatura.

Esta declaração foi subscrita por 22 relatores especiais do Comité dos Direitos Humanos das Nações Unidas, a 19 de novembro de 2020, Dia Mundial do Saneamento Básico

O Dia Mundial do Saneamento Básico ocorreu no meio da pandemia COVID-19, o que põe em relevo a necessidade vital de garantir o acesso à água e ao saneamento, em particular para as pessoas que se encontram em situações de maior vulnerabilidade. Há quem diga que estamos a viver uma “nova normalidade”, com a pandemia COVID-19 a mudar certas formas de vida. No entanto, para muitas pessoas, estamos a viver um momento de crise devido às graves consequências da pandemia COVID-19, que põe em risco a nossa subsistência.

Lembram-nos constantemente que uma forma de prevenir a propagação do vírus é praticar a higiene pessoal adequada, lavando as mãos com água e sabão. “Lavar as mãos com frequência” é uma rotina diária simples para muitas pessoas, mas é um privilégio e um luxo para quem não dispõe de água e saneamento adequados e para quem se depara com o irónico dilema de beber água ou usá-la para lavar as mãos.

Assim, os especialistas aproveitam para apelar mais uma vez aos governos de todo o mundo para que apliquem ou restabeleçam a política de proibição dos cortes de água e de outros serviços básicos e para que garantam um nível mínimo vital de água e de abastecimentos básicos essenciais a quem tiver dificuldade em pagar esses serviços e abastecimentos.

As necessidades específicas das pessoas de idade, que são as mais vulneráveis em caso de infeção, foram especialmente agravadas pela pandemia, sobretudo no caso das pessoas que vivem sozinhas, em lares de idosos ou com necessidades de assistência. Neste contexto, em que a pobreza e a desigualdade crescem cada vez mais, é necessário e urgente garantir o acesso universal à água e ao saneamento, sobretudo porque são direitos humanos, e também porque são essenciais para conseguir uma higiene adequada que permita travar as infeções e combater a pandemia.

Muitos governos estabeleceram medidas de proteção social que proíbem o corte de água como parte das medidas políticas para lutar contra a pandemia, em particular durante o confinamento. No entanto, com o tempo, em muitos países esta medida de proteção que protegia as pessoas em situações vulneráveis foi-se levantando ou suspendendo, apesar de a pandemia continuar mais ativa do que nunca.  Mesmo com a vacina disponível, que dificilmente será de acesso universal, o acesso garantido à água potável e ao saneamento para todos continuará a ser essencial para o combate ao vírus.

De sublinhar que a pandemia COVID-19 continua presente e que o seu impacto não só continua a ser devastador para a saúde e o bem-estar das pessoas em todo o mundo, mas também continua a aumentar a pobreza e a vulnerabilidade de milhões de pessoas. Muitos países continuam a permitir que a água seja cortada quando as famílias não conseguem pagar a fatura. Outros países ainda não consideraram a possibilidade de voltar a ligar os serviços de água às famílias cuja água foi cortada antes da pandemia. Em muitos casos, a falta de instalações de higiene, resultante de serviços de água e saneamento inadequados e insuficientes em prisões, centros de detenção, escolas e outras instalações educativas continua a ser trágica. A situação das pessoas sem abrigo é ainda mais devastadora. Além disso, esta emergência sanitária mundial aumentou as disparidades existentes com repercussões particularmente graves no presente e no futuro.

Os idosos também continuam a ser afetados desproporcionalmente neste contexto.

É necessário promover e implementar com urgência mudanças normativas e políticas que transformem a urgente necessidade da crise de saúde pública em garantias e salvaguardas para tornar efetivos os direitos humanos à água e ao saneamento para superar a pandemia.

O apelo vai no sentido de que a vida das pessoas e os seus meios de subsistência sejam mais importantes do que os benefícios e lucros desejados pelos agentes que gerem estes serviços, sejam públicos ou privados.

É necessário promover e implementar com urgência mudanças normativas e políticas que transformem a urgente necessidade da crise de saúde pública em garantias e salvaguardas para tornar efetivos os direitos humanos para superar a pandemia.

 

Caixa Alta, Rádio Castrense

Cristina Ferreira, 08/01/2021


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Cristina Ferreira - Crónicas IV (04DEZ2020)



 AS DESIGUALDADES E OS EFEITOS PANDÉMICOS NA EDUCAÇÃO

 

“As desigualdades emergem nas pandemias, reflectem-se nas respostas colectivas e são um espelho das nações. E recorde-se, ainda como ponto prévio: o rating dos países é essencial para os desafios de curto e médio prazos, porque, se for bom, permite dívida a juros favoráveis e estimula défices baixos ou superavits. No entanto, não admite repetidas recessões. Responde melhor nas crises se decorrer da consistência histórica na transformação de políticas, empresas e instituições extractivas (que acumulam a riqueza em oligarquias e “elites”) em inclusivas (que distribuem a riqueza e reduzem as desigualdades). Apesar das regiões europeias serem historicamente diversas neste domínio, espera-se que os erros cometidos na crise de 2008 não se repitam na covid-19: para salvar vidas, recuperar economias e manter a paz.

Estamos num período de quebra consentida do raiting porque atingiu todos. Mas essa tolerância contrapõe o não encerramento das escolas nas regiões em que o seu papel central é assegurar a força laboral das classes média e média baixa e dos pobres. É, infelizmente, pouco rigoroso convocar a urgência das aprendizagens. Essas escolas só são vitais no curto prazo para a economia; apesar de se temer que influenciem a subida dos contágios.

A pandemia expôs o fenómeno. As turmas, e escolas, numerosas são um dos indicadores extractivos que comprometem a redução das desigualdades e dos efeitos pandémicos. Olhemos para outros três: a escola a tempo inteiro e a falta de professores, onde se espera uma “vacinação” no quadro europeu até 2030, e a gestão do território que exige uma “terapêutica” mais prolongada.

A escola a tempo inteiro substitui valências assistencialitas, sociais e culturais que nas nações com bom raiting consolidado estão cometidas à sociedade. É por isso que essa “impossível” missão falha na redução das desigualdades. Basta reparar no calendário escolar. É sensato interromper as aulas a cada seis semanas para recuperar energias; mais ainda em tempos de pandemia. É um modelo usado em regiões da Europa com mais sociedade. Em tempo normal, as interrupções podem ser usadas para semanas de teatro, cinema, conferências e exposições da responsabilidade da sociedade para a emergência de novos públicos. Por cá, nem a pandemia questionou o que existe. O Governo anunciou, como se a covid-19 fosse assunto em via de resolução, mais dias lectivos e menos dias de interrupção (…).

Já a falta de professores reflecte o desprezo por um dos pilares da escola democrática. Agora que a pandemia evidenciou que está longe a substituição de professores por máquinas, olhemos para o tal exemplo finlandês, também na pandemia, para se perceber o que nos falta fazer. A Finlândia tem um século de independência e “mandatou” os professores para a construção da identidade nacional. Confiam nos professores. Desconhecem a lógica desastrosa do “cliente tem sempre razão” aplicada à escola. Não há avaliação do desempenho. A carreira tem dos mais elevados índices remuneratórios do sector público. A formação inicial é prestigiada. Não existe inspecção. E há estabilidade. Os excessos ideológicos das políticas educativas dos governos de Sócrates e Passos Coelho eram impossíveis na Finlândia. Os bons resultados internacionais mediatizaram um ensino centrado no professor. Em 2012, começaram a estudar a flexibilização curricular e só em 2016 deram os primeiros passos. A opinião dos professores conta. As escolas têm uma dimensão civilizada e desburocratizada. Perceberam que o imobilismo é uma irresponsabilidade perante a quarta revolução industrial. Mesmo que os professores não constem das tabelas (…) das profissões mais ou menos propensas à automatização, existem alunos com futuros profissionais. Foi o que os levou a pensar em mudanças devidamente testadas.

Por fim, a boa gestão do território é um factor estruturante para a redução das desigualdades. (…) As correcções são cada vez mais difíceis. A (des)organização do território em Portugal inscreveu aglomerados populacionais (…) que anulam a necessária miscigenação escolar dos grupos sociais e comprometem o elevador social que fortalece a classe média. O que temos, acentua a guetização dos desfavorecidos. Os grupos sociais mais fortes conseguem, naturalmente, que a frequência das escolas fique entre pares e provocam a auto-exclusão dos mais fracos; e é também por isso que se falha na redução das desigualdades e dos efeitos pandémicos.”

Este é um texto de Paulo Prudêncio, publicado no Blogue ComRegras, que leva à reflexão sobre as desigualdades e os efeitos pandémicos na educação. 

 

Fonte:

https://www.comregras.com/porque-se-falha-na-reducao-das-desigualdades-e-dos-efeitos-pandemicos-paulo-prudencio/

 

Caixa Alta. Rádio Castrense

Cristina Ferreira, 04/12/2020



sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Cristina Ferreira - Crónicas IV (20NOV2020)

 



MEDIDAS MÍNIMAS PERANTE UMA PANDEMIA

 

Medidas mínimas perante uma crise, uma pandemia é a resposta que o governo PS apresenta: não são a solução, nada resolvem, pelo contrário só agravam as fragilidades já existentes, agravando condições sociais e económicas de uma população que luta com o vírus, com a manutenção do emprego.

A aposta deveria ser ao contrário: maior apoio nas diversas áreas pois, só assim, se pode reforçar o combate à covid19, apoiar o cumprimento das regras, bem como evitar não deixar ninguém ao abandono.

A saúde da população continua nas mãos do Serviço Nacional de Saúde e este necessita, urgentemente, de medidas de apoio que possam preservar a sua capacidade de resposta, assegurar o seu funcionamento em pleno de modo a responder a todas as situações, sejam elas urgentes ou não.

Por outro lado, o governo gasta milhares de milhões de euros em pagamentos a serviços de saúde privados, utilizando os recursos públicos, mas estes têm de ser utilizados de forma criteriosa pois não tem nenhum sentido que haja quem esteja a lucrar com a crise. O interesse público é primordial, mas numa situação de pandemia, de crise é imprescindível.

A ofensa feita aos profissionais de saúde através da oferta de vales de compras, seja  para angariar trabalhadores ou para aqueles que façam mais de 40 horas semanais,  mostra bem o empenho que o governo está a colocar na resolução do problema; vamos ajudar o Pingo Doce, esse exemplo imaculado de cumprimento da lei ao nível fiscal e laboral, e nem sequer dá hipótese de escolha de outro local de compra como, por exemplo, o famoso comércio local.

Na perspetiva do prolongamento do estado de emergência, as medidas daí resultantes devem ser baseadas na realidade das necessidades que se verificam atualmente, e nas que possam advir do seu prolongamento ou agravamento da situação de crise, pelo que  planear o que fazer  e como o fazer é urgente,  pois mudar todas as semanas  estratégias e medidas não é coerente com a eficácia de resultados e só cria confusão, insegurança e medo na população que se vê confrontada com restrições e sem resultados.

Uma comunicação clara e coerente à população permite compreender o risco, respeitar as medidas e, a nível individual, atuar face ao risco a que está exposta.

Nove meses de pandemia exigem fortes medidas de apoio económico e social, pois as medidas de restrição continuam a jogar para o universo da pobreza muita gente e colocam muitos setores em situações de rutura.

Precisamos de um orçamento capaz de responder à crise, precisamos de políticas que tenham a coragem de sair do populismo, da inércia, para enfrentar a realidade, as necessidades de um país em crise.

 

Caixa Alta, Rádio Castrense

Cristina Ferreira, 20/11/2020

 

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Cristina Ferreira - Crónicas IV (06NOV2020)

 



FALAR A VERDADE NÃO É PESSIMISMO

 

Alexandre Henriques, no Blogue Com Regras, afirma que as escolas estão a fazer (quase) tudo para evitar a propagação do vírus. As salas são desinfetadas frequentemente, há gel por todo o lado, as turmas estão organizadas por turnos ou com horários desfasados, existem circuitos de circulação, etc. Mas muito mais podia ser feito, desde a mudança para sistema misto de ensino (metade da carga letiva na escola, metade em casa; alternância semanal de alunos nas escolas); arejamento mais eficaz; pausas letivas ao longo do ano letivo para diminuir o contágio, etc…

Mas, em outubro o grupo etário dos 10 aos 19 anos foi claramente aquele onde o aumento foi mais expressivo, mais do que duplicando em apenas um mês. No final de setembro o país registava 4.216 jovens com estas idades que tinham sido contagiados, número que chegou aos 10.199 no final de outubro (+142%), um aumento brutal em plena idade escolar.

O vírus também se transmite nas escolas, tal como em todos os locais, pela simples razão que ninguém sabe o exato momento da transmissão do vírus. Os alunos não mudam de cor quando ficam contaminados, mas é bastante provável que a transmissão ocorra nos locais onde existem mais alunos e onde estes passam mais tempo… por isso respeitar todas as medidas de prevenção é essencial, tanto na escola como… em todo o lado pois num mês Portugal teve quase tantos infetados como em sete meses.

Este início de ano letivo tem sido muito duro nas escolas, para toda a comunidade escolar, professores, assistentes operacionais, afirma Rui Pereira.

O principal problema é sem dúvida a pandemia. Em primeiro lugar porque não se compreende porque os professores são a exceção na aplicação de medidas de combate à pandemia. Quem argumenta que os professores, como os médicos, devem estar na primeira linha, para salvaguardar o futuro das crianças e jovens, tem razão, mas depois ignora deliberadamente que os profissionais de saúde têm medidas de proteção que os professores não têm, como os fatos, enquanto lhes exigem que nem as regras mínimas sejam cumpridas, como distanciamento de segurança, falta de arejamento entre aulas com turmas grandes, professores de risco com doenças associadas sem teletrabalho, etc.

Sim os professores devem estar na primeira linha, mas com medidas de proteção adequadas e não ser carne para canhão. Além disso, os professores têm dualidades de critérios para situações de covid19 como só irem para isolamento profilático uns quantos alunos nuns casos, a turma toda noutros casos, mas nunca o professor. O objetivo disto é manter a escola aberta a qualquer preço, o que não tem impedido que esteja a aumentar o número de alunos com ensino à distância, que é considerado um parente pobre e bem.

Planeou-se o ensino misto para as turmas terem aulas só de manhã ou de tarde, com redução das aulas presenciais para 3/4, mas esta modalidade ainda não foi aplicada nem está prevista nos concelhos em emergência. Na educação planeou-se, ao contrário da saúde onde claramente o planeamento falhou, mas agora que era preciso passar ao ensino misto não se avança. Sr. Primeiro Ministro planear significa estudar vários cenários onde se coloca hipóteses e abordagens a ter face às mesmas, desde as mais favoráveis às com maiores dificuldades. Como aceitar que com tanta gente nos gabinetes que não haja uma previsão de um cenário pessimista. Se o staff dos gabinetes não serve para planear, o que está lá a fazer? Só tem direito às mordomias?

Mas se na educação se planeou um sistema misto e agora se hesita em aplicá-lo, há que dizer que o problema de falta de professores resulta de um deixar andar, ir navegando à vista e não planear as falhas sistémicas que possam vir a acontecer no sistema de ensino e a falta de professores é a mais grave. O facto de terem estado previstas ajudas de custo para professores deslocados num dos últimos orçamentos e nada ter sido feito mostra que o problema foi equacionado, mas deliberadamente ignorado.

Concluindo: a normalidade do ensino está a ser perturbada pela pandemia, com muitos estudantes em casa, em ensino à distância, pois se as escolas não são na maioria dos casos a origem dos surtos, estão a ampliá-los, porque as condições são propícias à transmissão ao não se respeitarem regras impostas a toda a sociedade

Como diz Eduardo Sá: “Falar verdade não é ser pessimista. Encarar a realidade é perceber até que ponto é legítimo termos esperança. Em tempos de pandemia os discursos otimistas são uma ilusão.”

 

Fonte: https://www.comregras.com/relaxem-a-transmissao-nao-se-faz-nas-escolas/

https://www.comregras.com/do-covid19-a-falta-de-professores-muitos-alunos-sem-aulas-presenciais/

 

Caixa Alta, Rádio Castrense

Cristina Ferreira, 06/11/2020


sexta-feira, 17 de julho de 2020

Cristina Ferreira - Crónicas III (17JUL2020)





NOVO ANO LETIVO, MAS SEM NOVIDADES

 “O país tem de estar agradecido aos milhares de docentes e profissionais das diversas escolas que fizeram das tripas coração para construir e implementar estratégias de ensino à distância” que garantissem o acompanhamento dos alunos depois do encerramento das escolas afirmou, em declarações ao esquerda.net, a deputada bloquista Joana Mortágua; salientou que o afastamento das crianças e jovens da escola agrava as desigualdades e prejudica o seu desenvolvimento, por isso é necessário fazer todos os esforços para que no próximo ano letivo o acompanhamento presencial seja a regra”, sendo que, para isso, “é preciso adaptar as escolas e uma das medidas centrais é a diminuição do número de alunos por turma”, defendeu.
Voltar à escola e com segurança tem de ser a regra, sendo de lamentar a ausência desta questão no orçamento suplementar, no qual “não há um cêntimo reservado para a contratação de docentes, profissionais ou reforço de meios materiais”
O projeto de lei que foi chumbado estabelecia princípios e orientações, designadamente em matérias relativas à dimensão das turmas e ao número máximo de alunos por docente, para o ano letivo de 2020/21, ou enquanto durar a necessidade de distanciamento físico provocada pela pandemia de COVID-19.
A proposta, que se aplica quer aos agrupamentos de escola e às escolas não agrupadas da rede pública quer aos estabelecimentos de ensino particular e cooperativo, previa que na educação pré-escolar o número de crianças para um docente e, no ensino básico e secundário, o número de alunos por turma, corresponderia a um mínimo de 15 e um máximo de 20.
“Responder pela igualdade social e pelo desenvolvimento do país tem de corresponder um esforço de investimento por parte do Governo e do Ministério da Educação para o reforço de recursos humanos e materiais”, reafirma o Bloco de Esquerda, frisando que “não seria aceitável que, por opções orçamentais, se negasse o direito à educação a todas as crianças do país”.
 O Orçamento Suplementar apresentado no Parlamento pelo novo ministro das Finanças foi anunciado como o balão de oxigénio de investimento público para responder à pandemia. A recuperação económica e o reforço dos serviços públicos foram objetivo anunciado – daí chamarem-lhe suplementar, e não retificativo.
É compreensível a indignação de quem não encontrou no documento uma única referência à escola e às necessidades do próximo ano letivo pelo que se mantém inalterado o valor para o ensino básico e secundário e administração escolar em cerca de 5 milhões, e nem mais um euro.
Segundo o Orçamento Suplementar, o próximo ano letivo será igual a todos os anteriores ou, pior, igual aos últimos meses. Ambas as ideias são trágicas. A primeira, porque não é concretizável face à pandemia e não fazer nada só agravará alguns problemas estruturais da escola pública.
 A segunda, porque se baseia na perigosa ilusão de que o sucesso do ensino à distância depende de equipar os alunos, os docentes e as escolas.
Sem equívocos, o programa de modernização digital é uma boa notícia que só peca por tardia, mas não resolve o problema essencial da educação em 2020/2021. As limitações do contacto educativo à distância não decorrem do acesso a computadores, mas do afastamento das crianças e jovens em relação à escola. Esse afastamento tem consequências pedagógicas e sociais e prejudica até direitos fundamentais das crianças e dos jovens.
É dado adquirido que o ensino à distância agrava as desigualdades. Particularmente preocupante é a ideia de que, em meados de maio, mais de metade dos professores continuava sem conseguir contactar os seus alunos, mas mais de 70% estavam a lecionar novos conteúdos.
 Há dimensões da escola e da educação pré-escolar que não são substituíveis pelo ensino à distância, mesmo que ele se realizasse em condições pedagógicas perfeitas, o que está muito longe de se verificar. A socialização com os pares e com os docentes, dentro e fora das salas de aula, é um contributo insubstituível no percurso de desenvolvimento das crianças e dos jovens. O confinamento em casa impede essa socialização e prejudica de forma particular as crianças e os alunos com necessidades educativas especiais.
Os danos do afastamento serão tão mais permanentes quanto o tempo que ele durar. O que devia estar no centro do debate não são apenas os instrumentos do ensino à distância, mas as condições para o regresso às escolas em tempos de pandemia. Há muitos fatores que têm de ser tidos em conta, mas há um ao qual não é possível escapar: a diminuição do número de alunos por turma e o acompanhamento dos alunos que ficaram para trás durante este período. Vai ser preciso contratar mais professores, mais assistentes operacionais, mais técnicos especializados.
Sobre isto, nem uma palavra no Orçamento Suplementar. Devemos um agradecimento a todas as escolas que se empenharam na resposta de emergência à distância, mas desengane-se quem viu nela a panaceia para todos os males. O direito à educação desta geração vai jogar-se na possibilidade do seu regresso à escola.
Certamente que a adaptação das escolas à educação presencial em tempos de pandemia custa dinheiro. Mas quanto custará abdicar da igualdade social, da diminuição do abandono escolar, da elevação geral do povo pela educação, conquistas da escola? Tudo isto é demasiado importante para ficar resolvido por uma inexistência no Orçamento Suplementar.

Cristina Ferreira, 17/07/2020


sábado, 16 de maio de 2020

Cristina Ferreira - Crónicas III (16MAI2020)







ESTRANHO MUNDO ESTE

Estranho mundo este: no turbilhão de voltas e reviravoltas que a pandemia do COVID19 provocou, tanto sociais como económicas, eis que surgem notícias que mostram as movimentações dos bastidores da sociedade portuguesa, bem como as movimentações dos meios de comunicação social para as explorar até ao limite da miséria e dor.

Vejamos o caso do assassinato de Valentina, explorado até ao limite, pela comunicação social quando já eram repetitivas as notícias sobre o desenvolvimento da pandemia no país, as diversas doações de máscaras e gel desinfetante, o agradecimento aos profissionais de saúde, o regresso às aulas, as entregas de computadores por parte das autarquias, e tantos outros que, de serem repetidos e dissecados, cansaram e, em alguns casos deram origem a algumas confusões como, por exemplo, a ideia de que que os idosos não podiam sair de casa. Muitas vezes a informação foi desinformação, muitas vezes foi o canal para dar cara a muitas fobias e inflamar opiniões e julgamentos. A crise sanitária deu lugar à crise social, mostrou as emergências de uma sociedade fragilizada tanto a nível social como económico.

O relatório apresentado pela Estrutura de Monitorização do Estado de Emergência (EMEE), coordenada pelo Ministro da Administração Interna, apresenta um conjunto de conclusões sobre os efeitos da pandemia realçando que, e passo a citar, “a crise social subsequente à crise sanitária” e apesar dos mecanismos implementados pelo governo terem “contribuído para minorar as consequências nocivas resultantes, o decréscimo do emprego e a retração da atividade económica foram inevitáveis”.

O documento analisa também a questão da população idosa, e realça o reforço da “capacidade de realização de testes em lares de idosos, abrangendo tanto utentes como os respetivos profissionais” bem como o “esforço de alargamento de testes ao pessoal do serviço de apoio domiciliário e aos utentes e funcionários de lares não licenciados”.

Por fim, reiterou a necessidade de reabertura de serviços públicos essenciais, como por exemplo os tribunais, e “do regresso à normalidade ao nível da prestação de cuidados de saúde não relacionados com a COVID-19”. Também “os serviços públicos deverão ser um exemplo quanto à adoção de medidas de proteção que permitam o atendimento ao público em condições de segurança, o qual poderá ser duplicado pelo setor privado aquando da retoma da atividade”.

Enquanto a pandemia era a desculpa para as empresas despedirem o Novo Banco aumentou salário de gestores em ano de prejuízos pagos pelos portugueses e recebeu do Estado mais 850 milhões de euros, ou seja, do erário público, e pode ainda vir a distribuir bónus de 2 milhões após 2021. Além disso, ofereceu 320 mil euros ao novo administrador financeiro só para o contratar. No global, a administração executiva do banco auferiu 2,3 milhões de euros no ano passado. Uma realidade chocante mesmo para o universo privilegiado e protegido como é o da banca.

Se o presente é um problema para António Costa parece que o futuro não o vai ser.

Se António Costa dá Marcelo Rebelo de Sousa como sendo reeleito nas próximas eleições presidenciais, se Marcelo retribui o apoio e afirma que têm um espírito de equipa que ninguém vai quebrar, temos o esquema montado e a paga dos favores desta legislatura e uma mão lava a outra.

Até agora, só André Ventura, deputado do Chega, anunciou oficialmente a sua candidatura à Presidência da República.

E termino com estes dois estados de emergência política, bastante preocupantes por sinal, pois ainda não há vacina, ou qualquer medicamento, para situações desta natureza.



Caixa Alta, Rádio Castrense

Cristina Ferreira, 16/05/2020